Onde a política faz sentido
QUEM ARRUMA A CASA TAMBÉM PRECISA EXPLICAR A BAGUNÇA, Em sua primeira grande caminhada da campanha no Recife, Raquel Lyra levou às ruas mais do que bandeiras e pedidos de voto: levou uma narrativa para defender sua gestão. Ao falar em “ordem na casa”, a governadora cutucou o palanque adversário e colocou a comparação entre governos no centro da disputa. Agora, terá que mostrar ao eleitor se a arrumação anunciada também aparece nos resultados.

“Casa arrumada não precisa de placa na porta dizendo que está limpa.”
Mas, em ano eleitoral, até a vassoura ganha discurso, a faxina vira promessa e cada cômodo da casa passa a ter um padrinho político.
Foi nesse clima que Raquel Lyra chegou a Jardim São Paulo, no Recife, para sua primeira grande caminhada da campanha. E não chegou exatamente para distribuir sorrisos e apertos de mão.
Chegou com uma mensagem.
Ou melhor: com uma provocação.
“Precisou chegar uma mulher no governo pra colocar ordem na casa”, disse a governadora.
Ora, ora...
A frase certamente não foi escolhida por acaso.
Quando um político fala em “colocar ordem na casa”, está dizendo duas coisas ao mesmo tempo: que encontrou problemas e que acredita ter feito alguma coisa para resolvê-los.
A primeira parte interessa à oposição.
A segunda interessa a quem está no governo.
E é justamente aí que a eleição começa a ficar divertida.
Porque agora teremos dois grupos contando a mesma história com finais completamente diferentes.
De um lado, quem está no governo vai dizer:
“Olha o que fizemos.”
Do outro, quem está fora vai responder:
“Olha o que ainda falta fazer.”
E o eleitor, que não é bobo nem dorme de sapato, vai precisar decidir qual das duas versões chega mais perto da realidade.
Raquel parece ter escolhido não ficar esperando a oposição contar a história de sua administração.
E talvez seja uma decisão bastante lógica.
Quem governa e deixa o adversário narrar sozinho o que aconteceu durante seu mandato corre o risco de perder a eleição antes mesmo de começar a campanha.
A governadora, portanto, está fazendo o contrário: vai para a rua, conversa com eleitor, apresenta sua versão e coloca a gestão no centro da disputa.
É uma estratégia simples.
E, justamente por isso, pode ser eficiente.
Mas há uma ressalva.
Se a campanha vai falar de “ordem na casa”, será preciso abrir os armários.
Mostrar números.
Mostrar obras.
Mostrar resultados.
Mostrar o que mudou.
Porque dizer que organizou é fácil.
Difícil é apresentar a conta da organização.
E é aí que Raquel terá uma vantagem e, ao mesmo tempo, uma obrigação.
Vantagem porque está no comando do Estado e pode apresentar aquilo que seu governo entregou.
Obrigação porque, estando no governo, também será cobrada pelo que não entregou.
Política não vem com botão de “modo conveniente”.
Não dá para escolher apenas a parte bonita da gestão.
O eleitor também vai perguntar sobre aquilo que ficou pelo caminho.
E isso vale para Raquel, para a oposição e para qualquer candidato que apareça com uma solução milagrosa para Pernambuco.
Aliás, candidato que promete resolver tudo em quatro anos merece uma pergunta:
“E onde estava escondido esse botão mágico durante os últimos cem anos?”
Porque, na política, parece que todo problema tem solução.
Curiosamente, quase sempre a solução aparece três meses antes da eleição.
Mas voltemos à governadora.
Ao dizer que foi necessária a chegada de uma mulher para “colocar ordem na casa”, Raquel também está construindo uma imagem de firmeza.
Não é apenas uma frase sobre gênero.
É uma marca política.
A ideia é apresentar uma governadora que teria recebido uma máquina pública cheia de desafios e escolhido enfrentar a burocracia, organizar prioridades e tocar a gestão.
Se essa imagem vai convencer o eleitor, só as urnas poderão responder.
Mas uma coisa já ficou evidente:
Raquel não pretende disputar a eleição apenas no terreno da promessa.
Vai tentar disputar no terreno da comparação.
E isso muda bastante o jogo.
Porque promessa é sempre bonita.
Resultado é que dá trabalho.
E, quando o candidato pode dizer “eu fiz”, o adversário precisa encontrar uma resposta melhor do que simplesmente “não fez”.
É aí que a oposição terá seu desafio.
Não basta dizer que está tudo errado.
Será preciso explicar o que faria diferente e como faria.
Caso contrário, a crítica vira barulho de campanha.
E barulho de campanha Pernambuco já conhece de sobra.
Enquanto isso, Raquel vai fazendo aquilo que qualquer candidato à reeleição precisa fazer: colocar a própria gestão na vitrine.
Primeiro, na rua.
Depois, nos debates.
E, agora, também diante de quem entende de tecnologia e inovação.
Nesta quarta-feira (19), a governadora participa de uma sabatina do ecossistema de inovação do Porto Digital, discutindo propostas para tecnologia e inovação em Pernambuco.
Mais tarde, segue para Paulista, onde participa da Caminhada 55, em Paratibe.
Da tecnologia à caminhada.
Do debate técnico ao aperto de mão.
Da proposta para o futuro ao eleitor que está na calçada.
É assim que uma eleição vai tomando forma.
E talvez a frase mais importante dessa história não seja nem a da “mulher que colocou ordem na casa”.
Talvez seja outra:
quem está dentro da casa conhece melhor os cômodos — mas também será o primeiro a ser cobrado quando alguma coisa estiver fora do lugar.
Raquel sabe disso.
A oposição também.
E o eleitor, mais ainda.
No fim, ninguém vai votar porque ouviu que a casa está arrumada.
Vai votar se acreditar que ela está mesmo.
E essa diferença, aparentemente pequena, pode valer uma eleição inteira.
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