Onde a política faz sentido
Deputados protocolaram pedido de impeachment contra a vice-governadora Priscila Krause e a secretária de Saúde, Zilda Cavalcanti, citando suspeitas de possíveis irregularidades e conflito de interesses. Mais do que disputa política, o caso levanta uma pergunta que deveria interessar a todos: o dinheiro público está sendo usado corretamente?

“Quando o dinheiro é público, a pergunta também deve ser pública: para onde ele foi?”
Tem coisa que deveria fazer barulho. E muito. Mas, aparentemente, em tempos de política acelerada, até a indignação resolveu tirar férias.
Nesta quinta-feira (20), os deputados estaduais Rodrigo Farias, Romero Albuquerque e Sileno Guedes protocolaram, na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), um pedido de impeachment contra a vice-governadora Priscila Krause e a secretária estadual de Saúde, Zilda Cavalcanti.
Calma. Pedido de impeachment não é condenação. É um pedido que precisa ser analisado, apurado e, sobretudo, submetido ao devido processo. E é justamente aí que mora a parte mais importante dessa história.
Segundo os parlamentares, existem suspeitas de possíveis crimes de responsabilidade, atos que poderiam causar prejuízo ao patrimônio público e irregularidades na aplicação de recursos.
O ponto mais delicado da representação envolve a relação entre Priscila Krause e a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, unidade que, conforme apontado pelos deputados, tem como principal sócio e administrador Jorge Branco, marido da vice-governadora.
E aí aparece aquela pergunta que ninguém deveria ter medo de fazer: houve conflito de interesses?
Os deputados afirmam que, durante o período em que Priscila esteve à frente do Governo de Pernambuco de forma interina, foram autorizados cerca de R$ 200 milhões em orçamento, recursos que, segundo a denúncia, também poderiam alcançar a unidade de saúde ligada ao marido dela.
Se há dinheiro público envolvido, a discussão não deveria ser transformada imediatamente em torcida organizada.
Não é “sou contra Priscila”.
Não é “sou a favor de Priscila”.
Não é “meu deputado está dizendo, então é verdade”.
E também não é “meu grupo político está sendo acusado, então é perseguição”.
É dinheiro público.
E dinheiro público tem uma característica curiosa: não pertence ao governo, ao deputado, ao secretário, ao partido ou ao grupo político da vez. Pertence à sociedade.
Por isso, qualquer indício razoável de possível mau uso dos recursos públicos merece investigação. Não para condenar antecipadamente ninguém, mas justamente para descobrir se houve irregularidade — ou se a acusação não se sustenta.
O problema é que parece que estamos perdendo a capacidade de nos indignar.
Antigamente, bastava aparecer a suspeita de uma verba pública mal explicada para surgir uma multidão perguntando: “Como assim?”
Hoje, dependendo de quem está no alvo, uma parte comemora e outra parte passa pano.
E aí temos um problema maior do que qualquer disputa política: a transformação da fiscalização em torcida.
Se a denúncia é contra o adversário, exigimos investigação, CPI, impeachment, auditoria, Ministério Público, Tribunal de Contas e, se deixar, até o FBI.
Se a suspeita envolve alguém de quem gostamos, de repente descobrimos uma palavra muito confortável: “contexto”.
Ora, contexto é importante. Mas contexto não substitui investigação.
Priscila Krause tem todo o direito de apresentar sua versão, assim como a Secretaria de Saúde e os demais envolvidos. E devem ter espaço para isso. A ausência de uma manifestação até o momento também não pode ser transformada automaticamente em admissão de culpa.
Mas existe uma regra simples que deveria valer para todos os lados: suspeita se investiga; prova se analisa; culpa se estabelece dentro da lei.
É assim que uma democracia madura funciona.
O que não podemos aceitar é que o cidadão fique assistindo à disputa política como quem acompanha uma partida de futebol, enquanto a pergunta fundamental desaparece no meio da arquibancada: o dinheiro público foi aplicado corretamente?
Se foi, ótimo. Que a investigação esclareça e coloque os pingos nos is.
Se não foi, que os responsáveis sejam responsabilizados, independentemente do partido, do cargo ou da amizade política.
Porque governante não recebe dinheiro público como prêmio. Recebe a responsabilidade de administrá-lo.
E talvez esteja na hora de recuperar uma coisa que a política brasileira parece ter perdido no caminho: a capacidade de indignação seletivamente zero.
Que a indignação não tenha CPF, partido, ideologia ou candidato preferido.
Porque quando o dinheiro é público, a fiscalização também precisa ser.
No fim das contas, a política pode até dividir opiniões. Mas o dinheiro do povo deveria unir todos em uma única pergunta: foi usado corretamente?
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