Onde a política faz sentido
Denúncia sobre suposto "gabinete do ódio" gera exoneração no Governo do Estado, mas a ofensiva da oposição para desgastar o Palácio do Campo das Princesas sofre um revés: a internet ressuscita o passado digital sombrio do PSB, nivelando os danos na corrida eleitoral.
A política pernambucana foi sacudida nesta semana por uma reportagem da TV Record que trouxe à luz as engrenagens do que seria uma rede de disseminação de notícias falsas com o objetivo de "desidratar" adversários políticos, notadamente o atual prefeito do Recife e candidato ao governo, João Campos (PSB). No centro do escândalo está Amisadai Andrade da Silva, servidor cedido que ocupava o cargo comissionado de Superintendente de Operações da Arena de Pernambuco.
A investigação jornalística, ancorada em apurações da Polícia Federal, apontou vínculos de Amisadai com a empresa Portal Comunicação e Marketing LTDA, responsável por páginas com milhares de seguidores e supostamente beneficiada por contratos de publicidade estadual. É imperativo registrar, sob a ótica republicana, que a estruturação de milícias digitais para difamação é uma prática criminosa e nefasta, que deve ser rigorosamente investigada, combatida e expurgada da política.
A resposta administrativa do Executivo foi imediata. A governadora Raquel Lyra (PSD) assinou a exoneração do servidor logo após a veiculação do caso. Em nota oficial, o Governo de Pernambuco ressaltou que todos os seus contratos de publicidade obedecem a processos licitatórios legais e critérios técnicos. No campo jurídico, a defesa de Amisadai negou veementemente a autoria das publicações difamatórias posteriores ao ano de 2024, afirmando não responder mais pela empresa no período citado.
Como é praxe em períodos eleitorais, o episódio foi rapidamente encampado pela campanha de João Campos. O candidato socialista mobilizou suas redes sociais gravando vídeos com tom de indignação, tentando capitalizar politicamente o escândalo para desgastar a imagem de Raquel Lyra e consolidar a narrativa de vítima de um sistema oculto.
Contudo, na era da informação, o passado não prescreve. A estratégia do PSB revelou-se um clássico caso em que "o tiro saiu pela culatra". Ao alçar a pauta das milícias digitais ao topo do debate público, a campanha socialista inadvertidamente despertou a memória da internet. Em poucas horas, internautas, influenciadores e adversários políticos resgataram antigas matérias denunciando o chamado "gabinete do ódio do PSB" — uma estrutura semelhante que operou em gestões passadas, envolvendo ex-secretários estaduais e figuras de alto escalão vinculadas ao partido, e que havia caído no esquecimento popular.
Do ponto de vista da análise política e estratégica, o saldo do episódio é um desgaste mútuo. Para o Palácio do Campo das Princesas, o abalo ocorreu na quebra momentânea do discurso de nova política, exigindo de Raquel Lyra uma manobra rápida de controle de danos (a exoneração) para estancar a crise.
Para João Campos, no entanto, o prejuízo analítico pode ser mais profundo. A tentativa de monopolizar a virtude moral na internet falhou ao esbarrar no histórico de seu próprio grupo político. Ao requentar a discussão sobre fake news, o PSB colocou o seu próprio telhado de vidro à mostra, permitindo que a base adversária rebatesse as críticas com acusações de hipocrisia.
O eleitor pernambucano, calejado, assiste a uma guerra de narrativas onde a lama jogada no adversário mancha também as próprias mãos. O impacto imediato para as eleições de 2026 é um nivelamento por baixo das campanhas no ambiente digital, obrigando os comandos estratégicos de ambos os lados a recalcular rotas. Fica evidente que, na atual conjuntura, apostar no desgaste alheio sem analisar as vulnerabilidades do próprio histórico é um erro primário que o ecossistema digital não perdoa.
A corrida presidencial consolida a substituição de projetos estruturais de Estado pelo pragmatismo eleitoral. Entre táticas de viralização digital e injeções de caixa na véspera do pleito, o eleitor torna-se refém de promessas cíclicas e de curto prazo.
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