Onde a política faz sentido
No palanque da Mustardinha, o prefeito veste a capa de "solucionador supremo", promete milagres para Pernambuco e ignora que arrumar a casa de verdade exige mais calo nas mãos e menos espetáculo. Prometer hospital, escola e passe de mágica no microfone é fácil; o difícil é encarar a poeira, ajustar as contas e fazer a reconstrução pesada de um Estado longe dos holofotes e das redes sociais.

Fala, Junior!
“Como diz a sabedoria popular: de boas intenções e promessas de palanque, o inferno e o arquivo morto do Tribunal de Contas estão cheios.”
A noite de quarta-feira na Mustardinha teve clima de lançamento de filme de super-herói. O protagonista? João Campos, que subiu ao palanque vestindo a capa de "O Grande Solucionador". Em um discurso inflamado, o socialista mirou na gestão estadual e soltou o verbo, afirmando que o pessoal do Estado só sabe reclamar das dificuldades e dar desculpas. Ele, por outro lado — um verdadeiro espartano —, garantiu que assumiu a prefeitura no caos da pandemia e "não reclamou da vida".
É fascinante a ótica de palanque, não é mesmo? É muito fácil bater no peito, posar de intocável e dizer que faz e acontece quando se tem uma máquina municipal relativamente domada e um marketing que faria inveja aos estúdios de Hollywood. Agora, herdar a chave de um Estado inteiro, com uma bagunça estrutural e financeira daquelas de fazer qualquer contador chorar no banho, é uma missão que exige um pouco mais de calo nas mãos e menos gel no cabelo. Arrumar a casa, tapar os buracos do passado e equilibrar as contas sem fazer barulho não rende dancinha nas redes sociais, mas é exatamente o que impede que o teto desabe na nossa cabeça lá na frente.
Mas João não parou por aí. Ele lançou a sua frase de ouro: “Se quem está no governo hoje acha as coisas difíceis, pode deixar que eu vou resolver”. Pronto, minha gente! O mistério de Pernambuco acabou. É só entregar a caneta para o rapaz que ele levanta hospital, UPA, escola técnica e, quem sabe, até uma base de lançamento de foguetes da NASA num passe de mágica. Essa mania de tratar a administração de um Estado complexo como se fosse a sindicância de um condomínio beira-mar é um clássico das eleições.
E para completar a liga da justiça pernambucana, Marília Arraes também pegou o microfone. A candidata ao Senado fez questão de avisar que está "pronta, madura e preparada". Lembrou a todos que é a única mulher na disputa (um ponto super válido, diga-se de passagem) e tratou de fazer o tradicional combo de campanha: colou sua imagem na de Lula e afagou João Campos. Afinal, na política, a gente sabe que ninguém solta a mão de ninguém quando acha que o vento está soprando a favor.
No fim das contas, a caminhada na Mustardinha entregou exatamente o que se espera dessa época do ano: um mundo de fantasias onde a gestão pública é um mar de rosas e todos os problemas se resolvem com um estalar de dedos e um sorriso no rosto.
“O microfone aceita qualquer milagre, mas é o trabalho silencioso nos bastidores e a paciência de consertar os alicerces quebrados que revelam quem tem pulso para governar a realidade.”
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