Onde a política faz sentido
Entre contorcionismos retóricos e "desculpas aerodinâmicas", o deputado Nikolas Ferreira esquiva-se do fogo cruzado na disputa interna do PL. Entenda o amadorismo estratégico por trás do embate público entre Flávio e Michelle Bolsonaro e a tática de sobrevivência adotada nos bastidores da política partidária.

Quando a política partidária resolve pegar emprestado o roteiro de uma novela mexicana das oito, o resultado é um espetáculo de fogo amigo que deixaria qualquer analista de Realpolitik coçando a cabeça. O recente "pega pra capar" entre Flávio Bolsonaro (o herdeiro natural do espólio) e Michelle Bolsonaro (a detentora do carisma e do engajamento orgânico) é um clássico caso de disputa prematura por hegemonia interna.
E no meio desse tiroteio familiar? Encontra-se o deputado Nikolas Ferreira, executando uma manobra de gestão de crise que beira o contorcionismo de circo.
"Não estou entrando em bola dividida não. Estou tranquilo, estou trabalhando aqui."
Tradução simultânea do jargão político: "Se eu pular nessa trincheira, não sobra nem o meu laquê".
Nikolas sabe perfeitamente que em briga de herdeiro com a madrasta pelo controle do capital político, o coadjuvante que tenta separar a briga é o primeiro a levar a cadeirada. Sua estratégia é um exemplo de manual de sobrevivência no caciquismo partidário: quando o teto de vidro do seu próprio quintal começa a rachar, aponte para o vizinho.
Ao recorrer ao clássico espantalho do inimigo externo — "vamos focar em desgastar o governo Lula, tirar o PT" —, ele tenta aplicar uma cortina de fumaça na fratura exposta da legenda. É o equivalente a ver a cozinha da própria casa pegando fogo e gritar: "Gente, mas e a inflação na Argentina, hein?".
Do ponto de vista estritamente analítico e apartidário, esse embate público é um erro primário. Lavar a roupa suja do partido no palanque nacional é um dreno monumental de energia.
Canibalização de Votos: Em vez de consolidar uma frente unida para pleitos futuros, a cúpula gasta tempo precioso medindo forças para ver quem manda no curral eleitoral.
Munição para o Adversário: Na política, você não entrega a pauta de bandeja para a oposição. Enquanto o partido debate quem senta na janelinha do espectro conservador, o adversário assiste de camarote, comendo pipoca.
Desgaste de Imagem: A imagem de desunião afugenta o eleitor de centro e o investidor político (os pragmáticos do Centrão), que preferem apostar em canoas que não estão furadas por dentro.
Achar esse "auê" errado não é uma questão de alinhamento político, é matemática eleitoral básica. Ninguém ganha eleição majoritária promovendo um Casos de Família em horário nobre.
A cereja do bolo dessa ópera bufa, contudo, é a justificativa de Nikolas para sua ausência na convenção nacional do partido:
"Iríamos viajar eu, Domingos Sábio e Flávio Roscoe. Mas o avião não conseguiu, enfim, ter pouso para lá."
Na política, a meteorologia e a logística aérea são as ferramentas mais eficientes de damage control. O famoso "jatinho sem teto para pouso" é o atestado médico do parlamentar moderno. Que conveniente que as leis da aerodinâmica tenham impedido o deputado de comparecer ao exato local onde ele seria forçado a tirar uma foto sorrindo ao lado de duas pessoas que estão, nos bastidores, trocando farpas.
A aviação civil brasileira nunca falha em salvar um político de uma saia justa fotográfica.
Nikolas Ferreira agiu com o pragmatismo de quem sabe que seu mandato não pode ser tragado pelo buraco negro de uma rixa dinástica. Ele usou o spin doctoring para desviar o foco, pregou a paz armada entre Michelle e Flávio ("Acho que deram um recado de que existem coisas maiores em jogo") e usou a meteorologia como escudo.
No fim das contas, a declaração revela uma oposição que, no momento, precisa de menos estrategistas eleitorais e de muito mais terapeutas familiares de casal. Se o partido quiser realmente focar no "propósito maior", o primeiro passo lógico seria parar de atirar no próprio pé.

Entre o acirramento das relações com Argentina e EUA e o uso inédito de IA nas convenções partidárias, o cenário político nacional desenha uma disputa marcada por tensões institucionais e reordenamento geopolítico.
27 de julho de 2026 · 3 min de leitura

No último sábado (25), véspera da data oficial do seu centenário, a cidade de Flores, no Sertão do Pajeú, transformou-se no palco de uma grande reverência à música popular brasileira. A Rua da Igreja Matriz sediou o 1º Festival Ouro Negro do Pajeú (Festi'Ouro), evento que marcou as comemorações dos 100 anos de nascimento do maestro, arranjador e multi-instrumentista Moacir Santos, um dos filhos mais ilustres da terra.
26 de julho de 2026 · 2 min de leitura