Onde a política faz sentido
Diante do protecionismo agressivo de Washington, o Brasil avalia o peso de sua dependência americana e busca na multipolaridade estratégica — da Ásia aos BRICS — as rotas necessárias para blindar sua economia e expandir seu mercado.

Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a cartilha do livre mercado e da globalização. Hoje, no entanto, Washington parece ter reescrito as regras do próprio jogo. A política tarifária americana — seja sob a retórica do nacionalismo econômico ou sob o guarda-chuva retórico da "segurança nacional" — transformou-se em uma arma geopolítica que não poupa sequer aliados históricos. Diante de sobretaxas, cotas e barreiras muitas vezes arbitrárias, a pergunta que ecoa nos corredores da diplomacia e do agronegócio é inevitável: existem excessos? E, mais urgente, o Brasil consegue sobreviver sem o aval comercial do Tio Sam?
A resposta para a primeira pergunta é um sonoro sim. Há, indiscutivelmente, absurdos na política comercial americana recente. O uso indiscriminado da famosa "Seção 232", que permite aos EUA taxar importações alegando risco à segurança nacional, já foi utilizada para barrar desde o aço e o alumínio brasileiros até produtos que dificilmente representam uma ameaça bélica. Trata-se de um protecionismo disfarçado, desenhado sob medida para blindar setores internos ineficientes e agradar o eleitorado local. Quando a maior economia do mundo ignora as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) para agir de forma unilateral, o excesso deixa de ser uma falha no sistema e passa a ser a própria política de Estado.
Mas a indignação moral não paga as contas de um país em desenvolvimento. Isso nos leva à segunda questão: podemos virar as costas e sobreviver sem negociar com os Estados Unidos?
Sobreviver, sim. Mas não sem cicatrizes profundas. Hoje, os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Porém, mais importante do que o volume absoluto, é a qualidade dessa pauta. Enquanto exportamos majoritariamente commodities brutas (soja, minério de ferro, carne) para a Ásia, é para o mercado americano que enviamos produtos de maior valor agregado, como aviões da Embraer, autopeças, calçados e aço semiacabado. Romper ou negligenciar deliberadamente esse canal significaria desidratar ainda mais a já combalida indústria de transformação nacional. Não se ignora um mercado consumidor desse calibre sem pagar um preço altíssimo em empregos e inovação.
No entanto, a dependência excessiva é uma vulnerabilidade que o Brasil não pode mais se dar ao luxo de manter. Se a imprevisibilidade tarifária americana veio para ficar, Brasília precisa de alternativas robustas. E elas existem.
A primeira e mais óbvia rota é a China e o Sudeste Asiático. Pequim já é o nosso maior parceiro comercial. O desafio nesta frente não é encontrar mercado, mas forçar uma sofisticação da pauta. O Brasil precisa usar seu peso como fornecedor essencial de alimentos e energia para negociar a exportação de produtos industrializados e serviços para a Ásia, deixando de ser apenas a grande fazenda e mina do Oriente.
A segunda alternativa passa por uma integração real e agressiva com o Sul Global e o bloco ampliado dos BRICS. A Índia, com sua classe média em explosão demográfica, e o continente africano representam mercados gigantescos e ainda subexplorados para a tecnologia agrícola, engenharia e bens de consumo brasileiros.
Por fim, há a União Europeia. A eterna novela do acordo Mercosul-UE precisa de pragmatismo para chegar a um desfecho. Embora a Europa também tenha seus próprios absurdos protecionistas — operando frequentemente sob o verniz das exigências ambientais —, a formalização de um bloco de livre comércio criaria um contrapeso comercial imediato, reduzindo drasticamente a alavancagem de Washington sobre as nossas exportações.
O mundo deixou de ser unipolar há muito tempo. A verdadeira alternativa à chantagem tarifária não é o isolacionismo revanchista, mas a multipolaridade estratégica. Negociar com os Estados Unidos não deve ser um ato de submissão, mas de frio pragmatismo. O Brasil precisa continuar sentando à mesa com os americanos, defendendo seus interesses com a mesma agressividade técnica que eles utilizam. Mas, ao levantar da cadeira, nossa diplomacia comercial deve ter os olhos firmemente voltados para a diversificação.
No xadrez do comércio global, a soberania pertence a quem tem o maior número de portos abertos. É hora de o Brasil parar de lamentar as regras do jogo americano e começar, definitivamente, a jogar em múltiplos tabuleiros.
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