Onde a política faz sentido
A comparação entre a trajetória de Enéas Carneiro nos anos 1990 e a candidatura de Augusto Cury em 2026 expõe um padrão cruel da nossa democracia: a incapacidade do sistema de massas em absorver diagnósticos complexos, preferindo relegar a erudição ao ostracismo ou à caricatura.
A crônica política brasileira guarda um espaço melancólico para o que podemos definir como o "candidato deslocado do seu tempo". São figuras cuja envergadura intelectual e capacidade de diagnóstico chocam-se, não com a falta de problemas reais no país, mas com a incapacidade do sistema eleitoral de massas em decodificar a complexidade. A trajetória do médico e matemático Enéas Carneiro nos anos 1990 é o exemplo mais bem-acabado desse fenômeno.
Fundador do PRONA, Enéas dispunha de parcos segundos na TV para articular teses densas sobre soberania, geopolítica e exploração mineral. A resposta do ecossistema político-midiático da época foi letal: a caricaturização. Rotulado como uma figura excêntrica e folclórica por sua veemência e léxico rebuscado, foi alijado dos debates centrais. Hoje, contudo, a história opera uma revisão amarga. Seus discursos viralizam na internet como diagnósticos cirúrgicos e premonitórios sobre os gargalos do Brasil, enquanto uma fatia expressiva da sociedade reconhece, tardiamente, a genialidade desperdiçada pelas urnas.
Três décadas depois, em pleno 2026, o psiquiatra e escritor Augusto Cury reencarna essa assimetria estrutural sob uma nova roupagem. Se o projeto de Enéas era ancorado no nacionalismo técnico e nas ciências exatas, a plataforma de Cury mira a reconstrução humanística do Estado, elegendo a saúde mental e a inteligência emocional como pilares.
Apesar da urgência inegável do tema — em um país assolado por índices alarmantes de ansiedade, depressão e colapso educacional pós-pandemia —, o obstáculo que Cury enfrenta é essencialmente o mesmo de seu predecessor: a incompatibilidade comunicacional. Sua erudição colide de frente com um eleitorado treinado pelas redes sociais a reagir exclusivamente a gatilhos emocionais, lacrações e promessas binárias. A exigência de reflexão abstrata, proposta por Cury, é um corpo estranho na engrenagem de uma campanha movida a rage bait (isca de raiva) e polarização estética.
O paralelo entre Enéas e Cury não reside na concordância ideológica, mas no diagnóstico sobre a saúde do nosso debate público. Ambos expõem a tragédia das democracias hiperpolarizadas: o descompasso crônico entre o desejo teórico do eleitor por "pessoas preparadas" e o seu comportamento prático diante da urna eletrônica.
No calor da disputa, a lealdade a tribos partidárias e a sedução por soluções simplistas continuam a massacrar qualquer tentativa de profundidade programática. O risco que se desenha em 2026 é nítido: assim como ocorreu no passado, a postulação de Augusto Cury pode não ser lembrada por sua viabilidade executiva, mas figurar nos anais da nossa história política como mais um capítulo lúcido que foi impiedosamente esmagado pela urgência e pela superficialidade do pragmatismo eleitoral.
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