Onde a política faz sentido
Disputa de narrativas entre Paulo Câmara e Raquel Lyra reflete a velha política do "campeonato de retrovisor", onde discursos tentam se sobrepor aos números da gestão pública

Na política, existe um esporte que nunca sai de moda: a disputa pela herança. Quando o assunto é governo, ninguém quer assumir os problemas que encontrou, mas todo mundo faz questão de registrar em cartório as virtudes que deixou.
A mais nova troca de versões entre o ex-governador Paulo Câmara e a governadora Raquel Lyra segue exatamente esse roteiro.
Paulo afirma que recebeu Pernambuco praticamente em estado de calamidade administrativa quando assumiu o lugar de João Lyra Neto, pai da atual governadora. Diz que passou um ano apenas pagando contas, reorganizando a máquina e devolvendo capacidade de investimento ao Estado. Também sustenta que Raquel herdou um governo equilibrado, capaz de captar bilhões para investimentos, o que, segundo ele, desmontaria a tese de que Pernambuco estava "quebrado".
É uma narrativa coerente. Mas há um detalhe inconveniente para qualquer político: narrativas não governam; resultados, sim.
Quem entra numa casa sabe que sempre encontra uma torneira pingando. A diferença está entre consertá-la e passar quatro anos explicando por que ela pingava.
Curiosamente, quando Paulo Câmara assumiu, dizia que encontrou dificuldades. Agora, afirma que deixou tudo organizado. Raquel, por sua vez, sustenta que herdou um Estado cheio de desafios e que precisou reorganizar a gestão. No fundo, ambos usam o mesmo argumento em momentos diferentes: quem chega culpa o passado; quem sai elogia o próprio legado.
A política brasileira parece viver um eterno campeonato de retrovisor. Enquanto isso, o cidadão continua esperando que alguém descubra a existência do para-brisa.
Também chama atenção o fato de João Lyra Neto ser lembrado apenas quando convém ao debate. Seu curto período como governador ocorreu em circunstâncias excepcionais, de transição administrativa. Reduzir aquele momento à expressão "Estado quebrado" simplifica uma realidade muito mais complexa. A administração pública não se resume a uma fotografia de caixa; envolve contratos, obras, receitas, despesas, conjuntura econômica e prioridades de cada governo.
Há ainda uma ironia inevitável: se Paulo reorganizou completamente Pernambuco, como afirma, então parte dos investimentos anunciados hoje também dependeu da continuidade desse trabalho. Mas, se Raquel conseguiu ampliar investimentos, acelerar obras e imprimir outro ritmo à máquina pública, também seria injusto atribuir tudo exclusivamente ao governo anterior. Governar não é corrida de revezamento em que apenas um atleta merece aplausos.
No fim das contas, talvez o eleitor esteja menos interessado em descobrir quem recebeu a conta e mais preocupado em saber quem está pagando o jantar.
Porque existe uma diferença enorme entre administrar um Estado e administrar uma versão dos fatos.
E convenhamos: memória política tem prazo de validade. Ela costuma durar exatamente até a próxima eleição. Depois disso, até quem dizia que herdou um desastre passa a jurar que deixou um paraíso.
A contabilidade pública fecha por números. A política, infelizmente, ainda insiste em fechar por discursos. E discurso, como todo pernambucano sabe, não tapa buraco, não reduz fila e nem chega primeiro que a realidade.

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