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terça-feira, 20 de outubro de 2026Edição nº 22

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Onde a política faz sentido

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A Ilusão da Transparência Holística e a Geometria das Caixas de Vidro

Ao transformar a exibição voluntária de extratos bancários em arma de campanha, a reta final da disputa presidencial de 2026 atinge o ápice do teatro político, onde a virtude moral é medida pelo volume de dados escancarados na praça pública.

Albertino Blima20 de outubro de 20263 min de leitura
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Desde que os gregos inventaram a ágora — aquele espaço público onde os homens deliberavam sobre o destino da pólis enquanto as mulheres e os escravos cuidavam da vida material —, a política guarda uma relação quase erótica com a exibição da virtude. Diógenes, o cínico, caminhava por Atenas com uma lanterna acesa em pleno dia procurando "um homem honesto". Se vivesse no Brasil contemporâneo, Diógenes não precisaria de uma lâmpada: bastaria abrir um formulário no PDF e enviá-lo com firma reconhecida ao Tribunal Superior Eleitoral.

As crônicas políticas desta reta final de 2026 nos brindaram com uma cena digna do teatro do absurdo. Diante das câmeras de televisão e sob a luz fria dos refletores dos estúdios, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu lançar uma luva de pelica no rosto de seu oponente, o senador Flávio Bolsonaro. O ato? A promessa de assinar uma procuração autorizando a quebra voluntária do próprio sigilo bancário e telefônico — estendendo a caridade da exposição aos seus cinco filhos —, desde que o adversário faça o mesmo com sua respectiva árvore genealógica.

Há algo de profundíssimo e, ao mesmo tempo, de comovente e cômico nessa arquitetura do espetáculo.

Thomas Hobbes já nos alertava no Leviatã que a reputação é uma forma de poder porque atrai a adesão de outros. No entanto, quando a reputação passa a ser aferida pelo extrato bancário exibido em praça pública, entramos na era da "transparência como modalidade de ringue". O sigilo, que no direito moderno nasceu como garantia fundamental da intimidade constitucional, virou uma espécie de atestado de culpa moral. "Quem não deve, não teme", repete o senso comum com o entusiasmo dos velhos inquisidores que viam no silêncio do réu a prova cabal de sua aliança com o demônio.

O lance de mestre da tática eleitoral consiste em transformar o direito individual em estigma passivo. Ao dizer "eu me desnudo, logo, exijo que você tire o casaco", o ocupante do Palácio do Planalto não está propriamente buscando a iluminação dos fatos — a contabilidade pública e os órgãos de controle existem, teoricamente, para isso —, mas sim transferindo o incômodo da penumbra para o ombro alheio. É a dialética da vidraça: quem se atira voluntariamente dentro do aquário força o outro a explicar por que prefere continuar atrás da cortina.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, encontra-se no clássico dilema do prisioneiro de Game Theory. Se aceita o desafio e entrega os extratos, valida o script do adversário e transforma o debate público em uma auditoria contábil de fim de semana. Se recusa ou hesita, a dúvida analítica do eleitor de classe média transforma-se instantaneamente em veredicto de desconfiança na linguagem veloz das redes sociais.

Mas façamos um exercício de reflexão estoica, ao modo de Sêneca: o que realmente aprendemos quando um político abre suas contas bancárias durante uma campanha? Aprendemos, no máximo, o que ele escolheu deixar registrado no circuito oficial. A honestidade que precisa de ato performático para ser acreditada é prima irmã da virtude que só se pratica quando há plateia para aplaudir.

A política brasileira transformou o rigor institucional em uma gincana de auditório. De um lado, apela-se à biografia como um dogma intocável; do outro, esquiva-se de explicações sob o manto da perseguição. No meio desse fogo cruzado de procurações, o eleitor assiste ao espetáculo como quem acompanha uma disputa de cavaleiros medievais, onde o vencedor não é necessariamente o mais justo, mas o que manejou a espada da retórica com maior destreza dramática.

A República, contudo, subsiste. Não por causa das exibições voluntárias de puritanismo fiscal, mas apesar delas. Ao final da semana, quando as urnas eletrônicas forem encerradas e as procurações repousarem nas gavetas burocráticas de Brasília, restará a velha lição de Maquiavel: na política, todos veem o que você parece ser, mas poucos sentem o que você realmente é. E, no fim das contas — com ou sem sigilo —, o saldo que realmente importa para a história raramente é aquele digitado em um caixa eletrônico.

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