Onde a política faz sentido
Sob a mediação técnica de Nill Júnior, o "Debate das Dez" contrapôs os projetos de Raquel Lyra e João Campos, destacando-se pela assertividade programática, defesa de legados e por um raro reconhecimento mútuo entre adversários políticos no Sertão.

O Cenário e a Liturgia do Respeito
Realizado no dia seguinte às grandes convenções que chancelaram as candidaturas de Raquel Lyra à reeleição e de João Campos ao governo estadual, o "Debate das Dez", no programa Manhã Total da Rádio Pajeú, tornou-se um laboratório do que deveria ser o padrão eleitoral para 2026.
Antes de qualquer embate ideológico, a civilidade foi estabelecida na saudação de abertura. Edson Henrique, Assessor Especial da Casa Civil e representante do campo governista, fez questão de nominar os presentes no estúdio: seu contraditor Adelmo Moura (ex-prefeito de Itapetim pelo PSB), Alexandre Moraes, além de André, Michele Martins e Tito Barbosa da equipe da rádio. Em simetria protocolar, Adelmo Moura replicou o gesto, cumprimentando os mesmos presentes e reconhecendo Edson como liderança representativa da Casa Civil. Esse cumprimento mútuo blindou o debate contra ataques pessoais, mantendo o foco nas divergências políticas.
A Mediação: Nill Júnior e o Controle do Tabuleiro
O sucesso do formato passou inevitavelmente pela condução de Nill Júnior. O radialista adotou uma postura estritamente técnica, garantindo a isonomia de tempo com blocos cronometrados de 3 minutos e 30 segundos e inversão de ordem de fala.
Mais do que controlar o relógio, Nill inseriu provocações estruturais cruciais, fugindo de perguntas de plateia. Ele questionou a acomodação de Miguel Coelho após a disputa interna, a presença de Lula na campanha de João Campos, e repassou dúvidas de ouvintes sobre o legado do PSB nas rodovias e o peso da chapa de Túlio Gadêlha ao Senado. Ao final, o mediador classificou com precisão o encontro como "um debate com um excelente nível... com divergências, mas dentro de um princípio de civilidade".
Edson Henrique: Simplicidade, Assertividade e Defesa de Gestão
A estratégia de Edson Henrique foi pautada por uma defesa técnica e institucional, aliada a uma comunicação simples e assertiva. Suas falas mais relevantes concentraram-se na validação do governo de Raquel Lyra.
Edson classificou a convenção do final de semana como a maior da história de Pernambuco, exaltando a representatividade dos 184 municípios e dos 17 do Pajeú. No espinhoso tema envolvendo Miguel Coelho, Edson foi hábil ao transferir a responsabilidade para uma disputa estatutária interna da federação União Brasil-PP, controlada por Eduardo da Fonte, classificando a tese de traição por parte da governadora como "falácia".
Para comprovar entregas, o assessor apresentou um inventário de obras regionais, citando as PEs 263, 304 e 348, investimentos no Hospital Regional Emília Câmara e sistemas de abastecimento rural, contrapondo a narrativa de inação. Edson ancorou sua defesa no índice de aprovação da governadora, que ele cravou em 68%. Ao justificar atrasos, como o da Lei Orçamentária Anual (LOA), atribuiu a culpa à obstrução de deputados ligados ao PSB na Assembleia Legislativa. Ele utilizou falas de efeito da governadora, como o fato de ela ter "riscado a palavra medo do dicionário" e o pedido de "me deixa trabalhar", para criar um fio condutor emocional.
Adelmo Moura: Contraste Direto e a Grandeza do Reconhecimento
Do outro lado, Adelmo Moura adotou uma postura mais ofensiva, baseada no contraste entre um "governo que entrega" (referindo-se a João Campos no Recife) e um "governo que promete".
Adelmo descreveu o entusiasmo da convenção do PSB, relatando seu próprio sacrifício físico de caminhar quase um quilômetro com o joelho machucado para atestar a mobilização popular. Ele foi categórico ao afirmar que o grupo de Miguel Coelho sentiu-se traído "pela segunda vez" pela governadora, usando a presença de Vilões (aliado de Miguel) no palanque de João Campos como indício de ruptura. Sobre a aliança nacional, Adelmo cravou que não tem "dúvida nenhuma" de que Lula estará no palanque de João no primeiro turno, baseando-se na aliança histórica PT-PSB e na indicação da vice-presidência.
Na crítica administrativa, Adelmo questionou o destino de R$ 13 bilhões em empréstimos captados pelo Estado, apontando a demora na entrega de obras, como as creches (apenas 11 de 250 prometidas, segundo ele) e criticou o uso de uma aeronave da saúde para deslocamento da governadora.
No entanto, o momento de maior grandeza do debate partiu de Adelmo. Rompendo a lógica da polarização, o ex-prefeito reconheceu publicamente a competência de Edson Henrique. Ele afirmou que, após a entrada de Edson na Casa Civil, a articulação do governo ganhou uma dinâmica perceptível e as lideranças governistas ficaram mais satisfeitas. Embora tenha usado o elogio para criticar a demora da governadora em nomeá-lo, o reconhecimento técnico do adversário elevou o nível civilizatório do programa.
A "Guerra das Toalhas" e a Visão Analítica

Durante o embate, Adelmo citou a venda de toalhas com os rostos de Raquel Lyra e Flávio Bolsonaro por ambulantes, sugerindo que o bolsonarismo estaria com a governadora.
Uma análise fria dos bastidores aponta que a venda de merchandising informal obedece à lógica do comércio de rua, não a diretrizes de comitês de campanha. O eleitor possui o direito ao voto cruzado, e os comerciantes apenas atendem a essa demanda mercadológica, seja com toalhas de Raquel e Flávio, seja com toalhas de Raquel e Lula. Reduzir a complexidade das alianças estaduais ao comércio ambulante empobrece a leitura do cenário. Ademais, historicamente, o presidente Lula não tem faltado aos compromissos com aliados e, se eleito, a expectativa é que mantenha a agenda institucional.
Conclusão Crítica: A Vitória da Política de Propostas
O debate na Rádio Pajeú provou que é possível realizar um contraste real de méritos sem descambar para a baixaria. Edson Henrique demonstrou segurança ao sustentar argumentos institucionais sem elevar o tom, enquanto Adelmo Moura provou que a contundência crítica pode coexistir com a honestidade de reconhecer as virtudes do adversário. Em uma eleição estadual que promete não dar margem para erros, o "modelo Pajeú" de civilidade apresenta-se como a melhor referência para o eleitorado pernambucano.