Onde a política faz sentido

Sem apresentar um projeto de país, a oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência em 2026 aposta no radicalismo e em ataques institucionais como cortina de fumaça para mascarar seu isolamento político e as recentes crises nos bastidores.
A convenção do Partido Liberal em São Paulo não foi o lançamento de um projeto de país, mas a oficialização de uma trincheira. Ao ungir Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência para 2026, o bolsonarismo deixou cristalino que sua plataforma não será feita de propostas, metas econômicas ou visão de Estado. O cardápio oferecido ao eleitor será, quase exclusivamente, o ataque sistêmico e o revanchismo.
O palco armado para o senador foi um retrato fiel dessa estratégia. A presença ruidosa do presidente argentino Javier Milei e o vídeo de Benjamin Netanyahu serviram como um espetáculo para animar a bolha radical, funcionando como uma cortina de fumaça para a ausência de quem realmente decide eleição no Brasil: os aliados de centro. A repetição exaustiva da retórica antipetista, a vitimização e os ataques requentados ao Supremo Tribunal Federal mostram uma campanha que já nasce envelhecida, ancorada no ressentimento e incapaz de dialogar com os problemas reais da população.
Essa aposta no conflito permanente, contudo, não é apenas uma escolha ideológica; é uma tática de sobrevivência para desviar a atenção de um noticiário incômodo. O radicalismo no palanque tenta abafar as seguidas crises que encurralam o candidato. As diversas versões e as flagrantes contradições sobre a sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro expõem flancos abertos que a campanha tenta desesperadamente varrer para baixo do tapete. Do mesmo modo, as nebulosas questões recentes envolvendo o filme de seu pai mostram que o entorno do candidato continua imerso em polêmicas que implodem qualquer ponte com o eleitorado moderado.
Quando um candidato não consegue estancar suas próprias crises ou explicar suas alianças de bastidores, a saída mais fácil é gritar contra o "sistema". No entanto, o isolamento político de Flávio Bolsonaro já é palpável. Siglas fundamentais para a governabilidade e para o tempo de TV preferiram manter distância regulamentar da convenção. Paralelamente, o Palácio do Planalto atua com precisão cirúrgica para asfixiar as já escassas possibilidades de aliança do PL. Até mesmo aliados naturais demonstram um pragmatismo gélido, evitando colar suas imagens a um projeto que flerta com o desgaste institucional contínuo — como prova a insistência injustificável de voltar a atacar as urnas eletrônicas.
A conclusão é inescapável: a candidatura de Flávio Bolsonaro não busca construir uma alternativa viável para o Brasil, mas sim blindar um grupo político acuado. É uma campanha calcada em ataques simplesmente porque lhe faltam defesas. Resta saber se o eleitorado brasileiro estará disposto a pagar o preço, mais uma vez, por um projeto político que não oferece absolutamente nada além da terra arrasada.
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