Onde a política faz sentido
Lula e Flávio Bolsonaro decidiram não participar do debate da Band, e a ausência dos dois levanta uma pergunta incômoda: estratégia eleitoral ou receio de encarar adversários e perguntas difíceis?

“Quem não deve, não teme”, diz o velho ditado. Mas, na política brasileira, parece que o ditado ganhou uma pequena atualização: quem tem muito a perder, pensa duas vezes antes de subir ao palco.
E é justamente aí que começa a história do debate presidencial da Band, marcado para o próximo domingo, dia 23.
Lula não deve comparecer. Flávio Bolsonaro também não. Um olha para o cenário e calcula os riscos. O outro olha para a ausência do adversário e diz, em resumo: “Se ele não vai, eu também não vou.”
Pronto. Temos um debate presidencial com uma pequena questão de matemática: dois candidatos fora, vários candidatos dentro e uma pergunta enorme na cabeça do eleitor: afinal, quem está fugindo de quem?
A estratégia de Lula é compreensível do ponto de vista eleitoral. O presidente é o principal alvo da maioria dos adversários e, em um debate com vários candidatos, pode virar uma espécie de “caixa eletrônico de críticas”: todo mundo chega, faz uma pergunta, dá uma pancada, olha para a câmera e tenta transformar os segundos de televisão em vídeo para as redes sociais.
É o famoso “bater no grande para aparecer”.
Mas existe um problema nessa estratégia.
Quem ocupa o cargo de presidente não é apenas candidato. É também o principal responsável pelas decisões tomadas no país. E, quando o eleitor quer ouvir explicações, não adianta simplesmente escolher os palcos mais confortáveis.
Debate não é sessão de massagem eleitoral.
É confronto.
É pergunta incômoda.
É aquele momento em que o candidato precisa explicar aquilo que o marqueteiro preferia deixar escondido atrás de uma música emocionante e uma imagem bonita de campanha.
Lula, portanto, pode até ter uma justificativa estratégica para faltar. Mas o eleitor também tem o direito de perguntar: se o presidente está seguro do caminho que está seguindo, por que não enfrentar os adversários justamente quando todos estão reunidos no mesmo lugar?
Agora vamos ao outro lado da mesa.
Flávio Bolsonaro decidiu colocar sua participação praticamente no mesmo pacote da presença de Lula. Sem Lula, não teria sentido ir.
E aqui também existe uma lógica política.
Flávio sabe que, sem Lula no palco, poderia virar o alvo principal dos demais candidatos. Ou seja: o candidato que espera enfrentar o principal adversário poderia acabar passando boa parte da noite respondendo aos ataques de quem está tentando justamente roubar uma fatia do eleitorado.
Mas há uma contradição interessante.
Se Flávio quer chegar ao segundo turno, precisa disputar espaço. E debate é justamente isso: espaço.
Não adianta querer o segundo turno e, ao mesmo tempo, escolher cuidadosamente os momentos em que se está disposto a conversar com o eleitor.
Porque candidato não pode escolher apenas a pergunta que gosta.
Se pudesse, debate seria maravilhoso.
O jornalista perguntaria:
— “Qual é sua proposta para o Brasil?”
O candidato responderia:
— “Minha proposta é excelente.”
A plateia aplaudiria.
E todos iriam para casa felizes.
Só que política não funciona assim.
O eleitor também quer saber aquilo que incomoda.
Quer saber sobre economia, segurança, saúde, educação, impostos, corrupção, gastos públicos, emprego, programas sociais e, principalmente, como o candidato pretende fazer aquilo que promete.
É aí que o debate deixa de ser espetáculo e vira prestação de contas.
E há ainda outra questão que merece atenção: a própria composição do debate.
As campanhas questionam os critérios usados pela Band para definir os convidados, inclusive pela presença de nomes que não aparecem no centro da disputa eleitoral. A crítica merece ser discutida, porque as regras de participação precisam ser claras e compreensíveis para o público.
Mas também seria conveniente que candidatos não transformassem qualquer discordância sobre as regras em uma desculpa permanente para ficar longe do microfone.
Afinal, se a regra não agrada, discute-se a regra.
Se o adversário não aparece, enfrenta-se quem apareceu.
Se existem candidatos considerados menores, deixa-se que o eleitor decida o tamanho deles.
Porque existe uma ironia nessa história toda: os candidatos podem estar tentando evitar o debate, mas talvez estejam justamente ajudando a torná-lo mais importante.
A ausência de Lula muda o jogo.
A ausência de Flávio muda o jogo novamente.
E, de repente, quem estava atrás nas pesquisas pode ganhar o holofote que não teria com os dois protagonistas no centro do palco.
Na política, às vezes, o tiro sai pela culatra.
Você evita um confronto para não dar munição ao adversário e acaba entregando munição justamente para os adversários que estavam procurando uma oportunidade.
No fim das contas, Lula tem seus motivos.
Flávio também.
Mas o eleitor tem os seus.
E talvez o principal deles seja bastante simples:
quem quer comandar o Brasil precisa estar preparado para responder pelo Brasil.
Não basta aparecer quando a pergunta é conveniente.
Não basta falar para quem já concorda.
Não basta escolher o palco.
Porque governar é justamente o contrário: é lidar com perguntas que não foram combinadas, problemas que não estavam no roteiro e situações que ninguém conseguiu prever.
Debate é apenas uma pequena amostra disso.
E, se os dois principais nomes da disputa decidirem mesmo ficar fora, o palco continuará montado.
As cadeiras estarão ocupadas.
Os microfones estarão ligados.
As câmeras estarão gravando.
Só vai faltar uma coisa:
os dois protagonistas.
E aí fica a pergunta que ninguém consegue evitar:
se Lula e Flávio querem convencer o eleitor de que estão preparados para enfrentar os problemas do Brasil, por que estão tão preocupados em enfrentar um ao outro diante das câmeras?
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